Avatar II - The Way of Water

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Making Off

Avatar II - Trailer 2 Music Song


A releitura na arte consiste na criação de uma nova obra a partir de uma já existente, sem que haja cópia. O artista interpreta a obra original, acrescentando sua própria visão, técnica, estilo e contexto, mantendo, contudo, um elo com a obra de inspiração.

O meu trabalho desenvolvido na trilha de Avatar II, no entanto, não é uma releitura no sentido de composição musical, mas sim de timbre. Pense no quanto é desafiador tentar recriar o som de uma trilha sonora apenas pela escuta, sem acesso a nenhum material original do grande compositor Simon Franglen, tendo como única referência a divulgação do trailer de Avatar II, lançada em um dezembro de férias de 2022.

Essa foi a disposição que me motivou a criar um cover da música presente no trailer e, ao mesmo tempo, experimentar novas possibilidades sonoras — ainda que por necessidade. A minha releitura seria, portanto, timbrística: a percussão deveria ter o impacto adequado, os sintetizadores precisavam sustentar uma base firme e as vozes presentes deveriam se aproximar dos timbres originais da trilha, de modo a caracterizar-se como um “cover”.

Outra dificuldade que me guiou foi a busca por um conceito. Assim, ouvi o trailer diversas vezes e tentei desvendar as mensagens por trás do som: os tambores têm um som fechado e muito grave; a ambiência remete a um coral disperso; há elementos que lembram gotas de água, talvez em alusão à própria temática do filme; percebe-se uma melancolia em uma voz distante; e uma densidade nos graves que se mantém quase o tempo todo — e assim por diante.

Pré-produção e

Produção

Assim, era hora de começar. Fiz todas as partituras — afinal, eu estava cursando Música na universidade — e as converti em MIDI para utilizá-las com meus instrumentos virtuais no Reaper. Costumo sempre começar pela percussão, pois é um elemento muito característico dessa trilha e permanece presente durante praticamente toda a música. Como quase todos os recursos que eu tinha eram gratuitos, a percussão dos Taikos encaixou-se muito bem nesta obra.

Os taikos são tambores tradicionais do Japão, utilizados há séculos em cerimônias religiosas, festivais e apresentações culturais. A palavra taiko (太鼓) significa literalmente “grande tambor”, mas o termo também é usado para designar toda a família de instrumentos de percussão japoneses. Construídos, em geral, com corpos de madeira escavada e peles de couro tensionadas, os taikos produzem um som profundo, poderoso e vibrante, capaz de ser sentido fisicamente.

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Taikos.mp3

Uso do Sforzando para leitura de Samples.

Usando os taikos com o Sforzando, separei-os em graves, médios e agudos. Os taikos mais graves permaneciam soando o tempo todo, com um grave macio e ao mesmo tempo impactante. Nesse caso, utilizei quatro taikos diferentes, distribuindo dois para cada lado do panorama (L e R). Tocando com o controlador MIDI, a dinâmica soava natural devido às pequenas variações humanas das notas — as chamadas “incertezas” da execução real.

É comum que os sons graves fiquem posicionados ao centro do panorama, mas, neste caso, esse espaço foi ocupado pelas demais percussões dos taikos. Por isso, deixei os médios — tambores menores que os graves — posicionados entre 20% e 30% do panorama. Depois de toda essa configuração, converti o arquivo MIDI em WAV para prosseguir com as próximas etapas da produção.

Surge XT

Ouvindo o trailer, percebe-se que todo o início da trilha sonora apresenta marcações de percussão bem precisas, que decidi imitar utilizando os Taikos, acompanhados de um baixo synth com um pouco de distorção. Quase todos os sintetizadores dessa trilha foram feitos com o Surge XT, um sintetizador gratuito e bastante completo. Os presets de John Valentine foram os mais utilizados para criar os baixos que acompanham os Taikos.

Os presets de John Valentine foram os mais utilizados para criar os baixos que acompanham os Taikos. Já os pratos da BBC Symphony Orchestra complementam a percussão, juntamente com os timbres do Free Orchestra, da ProjectSAM.

Melodia principal - Tema

Outro timbre marcante — e talvez o mais importante quando se trata do arranjo — é o solo vocal, que permanece o tempo inteiro apresentando uma melodia e um tema bem definidos. Utilizando a ferramenta do “conceito”, mencionada anteriormente, compreendo que essa melodia é muito bem dividida e mantém uma ideia incompleta, despertando curiosidade nos ouvintes sobre o que virá a seguir.

Timbre do solo principal

Do ponto de vista timbrístico, a voz feminina e delicada às vezes lembra um canto de sereia, algo que reconhecemos pela forte influência do cinema em nossas mentes desde a infância. É a mesma situação vivida pelos sound designers ao criarem o som de naves espaciais: ninguém jamais ouviu uma nave real, mas o cinema estabeleceu um padrão sonoro que se tornou familiar para todos nós.

Com a voz feminina da melodia principal desta trilha ocorre o mesmo processo. A própria proposta do filme — um povo primitivo e distante, com características que lembram povos indígenas vivendo em uma floresta desconhecida — reforça esse conceito. É o canto sem instrumentos, a melodia sustentada apenas pela voz delicada, quase como a de uma jovem indígena cantando à beira de um rio.

Gaelic Voices

Com essa ideia em mente, criei a melodia usando o Gaelic Voices, do LABS. Segundo a descrição oficial: “Seis cantores gaélicos tradicionais foram gravados dentro das ruínas de um seminário da década de 1960. Originalmente um campus de treinamento para padres católicos, o Seminário de São Pedro fechou em 1980 e entrou em ruínas. No esqueleto de concreto da antiga capela, a equipe do LABS capturou um pequeno grupo de cantores executando uma cativante gama de técnicas aleatórias, inspiradas nas tradições vocais celtas.”

Com essa proposta brilhante transformada em plugin — aliada ao conceito mencionado anteriormente — consegui recriar a voz solo da trilha, que permanece presente quase o tempo todo. Mergulhada em reverbs, essa voz adiciona uma característica marcante e única, completando a atmosfera da trilha de Avatar II.

Além disso, a primeira parte da trilha do trailer, que podemos chamar de estrofe, utiliza muitos sintetizadores com efeitos que lembram gotas de água, além de uma boa dose de pads envolventes, com graves macios, como os presets Fireflies e Azure Sky – Xenofish. Somam-se a isso vários efeitos de transição, sincronizados com as cenas do filme durante o trailer. Essa combinação finaliza a primeira parte da trilha.

BBC Symphony Orchestra

Sempre utilizo o BBC Symphony Orchestra em minhas produções cinematográficas. Os violinos, viola e cello são sempre indispensáveis, e o contrabaixo completa o conjunto com um som ultrarrealista. No refrão, que é a parte mais intensa da música, os violinos se somam a um dos sintetizadores para formar uma base de notas longas, que em alguns momentos se alterna para o solo, acompanhando a voz principal.

CONTINUANDO

Seguindo para os sintetizadores, utilizei o Surge XT em todas as faixas. A partir do momento mais intenso da música — que podemos chamar de refrão — a presença dos sintetizadores torna-se indispensável. Um dos presets mais interessantes do Surge, e que se aproximava muito da ideia da trilha original do trailer de Avatar II, é o JX–10 Double Brass, responsável por sustentar a base durante todo o trecho.

Além disso, utilizei faixas duplicadas na mixagem para ampliar o estéreo e proporcionar maior preenchimento sonoro. Outros presets do Surge seguem a mesma proposta do JX–10 e foram utilizados simultaneamente para reforçar essa textura.

Há também um arpejo contínuo, construído em tríades e tétrades nessa parte da trilha, criado com o preset Harp 4 – Kennedy, que adiciona movimento e brilho ao refrão.

Por fim, há um piano de cauda finalizando a parte mais intensa com notas graves. O Hammersmith é uma simulação extremamente realista, que utilizo especialmente em músicas acústicas. No entanto, nesta situação, seu realismo funcionou muito bem para esse trecho, composto por apenas alguns poucos acordes.

Retomando a proposta de conceito e releitura artística, não pude deixar de finalizar a melodia com um pequeno acréscimo pessoal enquanto arranjador. Fiz uma pequena variação na voz solo do Gaelic, do LABS, enquanto a base permaneceu original.

Mantendo o Lá maior na harmonia, fiz com que a melodia passasse por um Fá natural, preservando as passagens com Mi e Dó sustenido.

Person operating a sound mixing board at night.

Do ponto de vista do empréstimo modal, poderíamos interpretar esse movimento como uma alternância entre o I maior, o IV menor e o retorno ao I maior. Entretanto, a base harmônica foi mantida, e o empréstimo ocorreu apenas na melodia, com aquela nota “chave” característica — neste caso, o Fá.

A trilha se encerra com efeitos sutis que lembram gotas de água, assim como no início, criando uma sensação de ciclo e unidade estética.

Pós-produção, lançamento e repercussão

A mixagem foi feita inteiramente com plugins gratuitos. Na masterização, destaquei os graves e o ganho geral da faixa. Ouvi várias vezes antes de finalizar, sempre comparando com a trilha original do trailer. Lancei o vídeo no YouTube com apenas uma semana de diferença em relação ao lançamento oficial do trailer. O resultado foi que o número de visualizações cresceu bastante em pouco tempo, com vários comentários positivos, tanto de brasileiros quanto de estrangeiros. Foi um sucesso!

Minhas propostas artísticas são experimentais, mas sempre coerentes com as peças originais, desde que estejam dentro do contexto das releituras. Como todo o processo foi conduzido dessa forma, com a masterização não poderia ser diferente. Em outras páginas do meu site, é possível ver o uso do Master Desk em minhas finalizações, já que ele é perfeito para elevar os volumes e equilibrar as faixas após a mixagem. Como mencionado antes, os graves dessa trilha são muito intensos e apresentam marcações poderosas. Por isso, precisei trabalhar de forma mais detalhada na mixagem dos graves, e o Master Desk ajudou a equilibrar tudo no final.

“best ever place to eat your favorite delicious food”

Crescimento em vizualizações

A repercussão foi impressionante. Dia após dia, as visualizações no YouTube, Spotify e demais plataformas de áudio continuaram crescendo, junto com os comentários. Era realmente uma sonoridade e uma experiência únicas, que remetiam ao que foi transmitido na trilha sonora original. Ainda hoje, as visualizações aumentam continuamente, e me sinto satisfeito por poder compartilhar ideias ao mesmo tempo novas e referenciais, sempre inspirado nos grandes criadores do mundo da música para cinema, que seguem despertando sentimentos e sensações incríveis em tantas pessoas.

Considerações Finais

Recriar uma obra é um gesto que une respeito e invenção, um encontro entre o que já existe e aquilo que nasce novamente pelas mãos de quem escuta com profundidade. Esta produção, inspirada na trilha de Avatar II, revelou que a releitura não é cópia, mas diálogo: um espaço onde timbres, melodias e atmosferas se transformam em novas emoções, preservando a essência original enquanto ganham identidade própria. Ao reinterpretar taikos, vozes etéreas, sintetizadores e camadas orquestrais, a música tornou-se ponte entre tradição e experimentação, mostrando que produzir é também transformar. No fim, a importância da releitura está justamente nisso — permitir que a arte continue viva, renascendo em outras sensibilidades, ampliando mundos e tocando novos ouvidos com a mesma força com que um dia tocou o seu.

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